Nesta terça-feira (20), a partir das 19h30, a galeria Newton Navarro, sede da Funcarte, recebe a exposição em homenagem ao artista potiguar Leopoldo Nélson (1940-1994). São 26 obras do artista, entre pinturas em tinta a óleo, tinta acrílica e desenhos, além de 3 fotografias e um pôster de uma exposição na Suíça. A exposição conta com acervos da família e de amigos do artista e o projeto faz parte da programação do Natal em Natal, promovido pela Prefeitura do Natal.

Leopoldo Nelson nasceu em Natal em 1940 e faleceu precocemente em 1994. A mostra oferece ao público um pequeno e variado recorte da extensa obra artística deste médico neurologista e cientista. Sua paixão pela pintura como canal de comunicação de sua psicologia e de suas reflexões mais profundas serve sempre como estímulo à entrega, à reflexão, ao compromisso com nossas paixões e à compreensão da importância da vivência poética para todos nós.

 SERVIÇO:

EXPOSIÇÃO LEOPOLDO NÉLSON

TERÇA-FEIRA, DIA 20, ÀS 19H30

GALERIA NEWTON NAVARRO (SEDE DA FUNCARTE)

ENTRADA FRANCA

 

 

 

                          Napoleão de Paiva Sousa

                         Poeta

 

Ainda na adolescência o poeta Augusto Severo Neto me apresentou à pintura de Leopoldo Nelson. De imediato duas coisas me chamaram a atenção, a assinatura inusual das obras, apenas as letras L e N sobrepostas e, sobretudo, o que dela emanava em intensidade lancinante. Ali certamente cumpria-se um dos pressupostos e função da obra de arte, na visão de Borges: a de comover.

Passado quase meio século, a sensação daquela tarde em mim remanesce. Contemplar seu trabalho é se avizinhar do humanismo, enxergar o mundo através de seus olhos solidários, justos, na busca incessante do homem e sua essência.

A percepção do seu mundo passa por filtros de sensibilidade à flor da pele, seguindo por campos de sólida formação e influências nas artes plásticas – Rembrandt, El Greco, Brueghel, Modigliani; igualmente na poesia – Garcia Lorca, Rilke; na filosofia – Sartre, Kierkegaard, Jaspers; na neurofisiologia humana e outros interesses afins.

Há nele uma dramaticidade latente, por vezes explícita, rica em referências artísticas e cheia de substância poética, humana e política – o que desaconselha qualquer olhar morno sobre seu trabalho.

A arte do grande pintor não é planície para repouso, ou contemplação passiva do universo recriado.

Leopoldo Nelson de Souza Leite (1940 – 1994) viveu e criou sua obra sob o signo da paixão. Avassaladora paixão pela pintura, poesia, filosofia, ciência, física quântica, pelo ser humano (do indivíduo ao ser social) em todos os seus pulsares, e muito pelas suas musas da vida inteira – Margarida e Jovanka. Tudo parece misturar-se quando pincela a tela o criador emocional.

Daí provavelmente suas encantadoras mulheres, surgidas de pouquíssimos traços, seres elegantes quase evanescentes; e seus girassóis em permanentes recriações; seus mares revoltos insondáveis; seus esquálidos personagens do nosso apartheid social; suas carpideiras solenes em luto fechado, com o rigor e método de um Goya, ou de Munch, em estudos para talvez sua obra mais arrojada, a Via Sacra Segundo o Evangelho de São Matheus.

Uma Natal dos anos 70 assistiu – entre surpresa e encantada – o seu vernissage na Fortaleza dos Reis Magos. A obra refulgiu na noite e dali sumiu para sempre. Suas quatorze telas foram adquiridas pelo Governo do Estado e doadas à Arquidiocese de Natal que as escondeu dos olhares curiosos. Dizem que o Cristo nordestino de Leopoldo fugia ao figurino greco-romano escolhido pela Igreja para sua história de olhos azuis. No subsolo da Catedral permaneceu oculta até o seu deterioro. Há anos foi devolvida à Fundação José Augusto, de onde não se tem notícias. Possivelmente segue dentro do seu estrago.

Ave, Leopoldo! 

Natal, novembro de 2018

 

 

 

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Nascido em 25 de outubro de 1940, em Natal, sou filho de Rômulo Leite e Maria de Souza leite – ambos filhos de emigrantes portugueses. Seus pais se casaram com filhos de famílias brasileiras mais antigas – e sem qualquer tradição no Brasil Colonial – e, assim, sou parte do povo, fato que me orgulha.

Meu pai tinha uma grande confiança em mim. E, por esse motivo, fui estudar em Recife aos 15 anos, frequentando nos dois primeiros anos o Colégio Estadual de Pernambuco – no curso científico – e, no terceiro ano, transferindo-me para o clássico.

Nessa época, descobri os filósofos existencialistas e, em particular, Kierkegaard. A fenomenologia de Husserl e Jaspers. Numa tarde – e num encontro absurdo -, ajudei a empurrar o ‘ taxi ‘ que conduzia Sartre, no Cais do Apolo (em Recife); e senti, nesse momento, a relatividade do homem e da vida.

Fiz o vestibular de direito e, naturalmente, fui reprovado. Depois, superando em parte esses conflitos, voltei para Natal e fui aprovado no vestibular de medicina – profissão que escolhi conscientemente, após uma profunda autoanálise. Formei – me em 1968, um ano após a morte de meu pai.

Casei-me no primeiro ano de medicina com Margarida, minha mulher que continua sendo minha amante e que me deu uma filha: Jovanka, um amor de pessoa. Margarida, na sua aparente fragilidade, possui um caráter firme, complementando o meu ser, satisfazendo-me integralmente. Por isso acredito ser bem casado.

Dediquei-me ao estudo da fisiologia cerebral, talvez levado pelas minhas dúvidas filosóficas. Sou essencialmente agnóstico, humanista por princípio – e tenho a intenção de compreender a psicologia humana.

Fiz um Curso de Mestrado em Fisiologia – Curitiba – e Doutorado em Fisiologia no Hospital de La Santa Cruz y San Pablo, da Universidade Autônoma de Barcelona – Espanha.

Comecei a pintar em 1961, tive várias fases e sofria influência direta de Rembrandt, Zurbaran, El Grecco, Goya, Bosch, Brueghel, Van Gogh e Modigliani. E também de James Ensor.

 

É certo que também encontrei nas minhas madrugadas plantas com maldades e virtudes semelhantes; porém também refleti bastante e fui recompensado pelo gesto generoso de cada um dos meus amigos.

Leopoldo Nélson, in Gravuras e Fragmentos Autobiográficos.

UFRN – Natal/RN – 1981.

 

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“Na arte instigante, de catarse, de Leopoldo Nélson, compulsivamente o olhar se debruça e o pensamento mergulha numa demorada indagação vertical. Sua arte tem a sugestão de fruto que já brotasse maduro, nem novo nem velho, mas com a marca da perenidade.”

                                                                           Luís Carlos Guimarães

                                                                                 Poeta potiguar

 

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“Conheci Leopoldo Nélson na adolescência louvável de todos nós. Éramos os jovens de uma geração, senão perdida, mas que pelo menos tentava encontrar seu rumo através de posições estéticas e, a seu modo, filosóficas. Leopoldo, quase menino, lia em alemão e recitava o Assim Falava Zaratustra como quem descobria o universo, não pela teoria do super-homem, mas dentro de uma força vital que queria transcender de qualquer maneira à estiolada paisagem da província submersa.”

                                                                              Sanderson Negreiros

Poeta potiguar

 

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“Leopoldo em seus trabalhos de figuras humanas estendeu-se em visões que se multiplicam às dezenas.  Por exemplo: essa fixação quase que permanente de sua esposa, mesmo quando o quadro não traz o seu endereço. Margarida posa sempre para os seus olhos cheios de claridade nordestinas, emersa do coração de amante. Isto, no pintor, para ressaltar essa fidelidade curiosa e congênita em que a criatividade obedece aos seus impulsos mais fortes de amor. Pinta então, com ‘amos’, exclusivamente, à boa maneira de Pancetti”.

                                                

                                                                              Newton Navarro                                                                                                                                                                                                                                

Artista plástico e poeta potiguar

 

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